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Eu vou enlouquecer

Eu fico pensando em tanta coisa na minha cabeça. Eu fico pensando por que eu penso tanto. Eu queria ser normal e fazer tudo o se espera de mim. Eu queria morrrer e eu queria viver. Eu sinto que estou te manipulando para que cuide de mim e me ache atraente, uma beleza triste e trágica. Eu acho que minha vida seja trágica e isso parece belo, acho que tem uma influência das coisas que li na vida. Eu queria ser poética e conseguir me destacar artisticamente, mas eu sou uma pseudointelectual. Eu finjo tudo muito bem. Até isso que estou escrevendo, será uma performance? Eu estou o tempo todo criando a minha imagem e isso é exaustivo. Eu só queria estar acontecendo na vida, respirando, comendo, dormindo e fazendo o que o corpo tem que fazer, sem pensar, sem ferir e sem chorar. Eu nem mesmo sei o que eu sinto. Eu to escrevendo um monte de coisas sem sentido que uma louca escreveria. Como eu cheguei tão longe, sendo tão estranha? Por que as pessoas confiam e acreditam em mim? A página está acabando e eu nem sei o que eu pensei esse tempo todo. 

Boneca

Ele me pergunta e eu olho pra dentro. Não sei responder.

Fico olhando em silêncio. Foi assim. É sempre assim.

Ele pergunta de novo e eu travo.


Tenho uma caneta nas mãos que uso pra me conter. Risco no papel um rosto bonito. Risco de novo e o rosto está quebrado. Risco uma boneca.


Passam-se horas.


Abro a boca e deixo a fumaça sair. Ela parece uma borboleta. Um anjo revoa na minha frente. Ele é doce. Acho que estou confundindo. É só fumaça. Toda noite é assim.


Estou ficando maluca.


Gosto do silêncio da noite. Ele é parecido com o silêncio da minha cabeça. É um silêncio de morte.


É estranho pensar em nada? Como faz? Eu não sei. Eu não sei pensar. Sou uma cabeça quebrada.


Quando eu brincava a boneca caiu no chão. Trincou a testa, que pena. Trincou a testa mas ninguém percebeu, então continuei brincando, mas a boneca quebrou mais.


Logo o trinco da testa estava em seu corpo todo, espalhado. Os braços timham enormes rachaduras. Ela não é mais tão bonita.


Estranho todas as partes seguirem unidas quando tudo está estilhaçado. Acho que as roupas ajudam a manter tudo no lugar.


A boneca caiu no chão e quebrou. Não dá mais pra consertar.


Ele me faz perguntas e eu fico em silêncio. Eu só queria um pouco de cola. Será que acho na internet? Amazon? Mercado Livre? Shoppe?


Eu acho que os olhos dela são de vidro. São tão parados.


Quando a fumaça sai da minha boca é como se fosse um pouco de alma indo embora. Ela vai embora dançando.


Se eu soprar na boca da boneca será que é melhor que cola?


Eu só queria consertar os seus braços. Os olhos parecem estar funcionando.


Acho que o martelo pode resolver. Se não dá pra consertar, então pode virar pó. Vou martelar a cabeça dela até não sobrar nada.


Marteladas. Marteladas. Marteladas.


O pó virou fumaça, não sobrou nada. Só os olhos parados quando ele faz uma pergunta.


Peso

Qual o peso do coração

quando os olhos vertem

a última lágrima  

quando a garganta prende

o soluço incontido

quando os lábios tremem

as derradeiras palavras 


Qual o peso do coração

quando os joelhos fraquejam

e caem por terra

quando a memória lembra

o último abraço

quando os ouvidos escutam

o som do silêncio


Qual o peso do coração

quando os pés suportam 

o corpo exausto

quando as mãos trazem

o carinho não dado

quando os braços dão colo

ao filho morto


Qual o peso?

Parto

Gritou e chorou a dor que sentia, se encolheu em soluços num parto as avessas, até que eu nasceu de volta pra dentro do utero de sua mãe.

Dança

Dança no quarto sozinha. O corpo solto, o quadril libertino. Da janela pode ver o céu laranja. O horizonte da cidade delineia o drama. O corpo flexível, o abdômen languido. O pulsar da musica pulsa suas veias. No corpo vivo as mãos deslizam. O quadril vibra convidativo. Não está nua, mas se vê cada músculo. No espelho o reflexo emoldura o corpo de céu. O crepúsculo laranja incendeia o quarto. O corpo dança extasiado. No arroubo abre a blusa e solta os cabelos. O vento bate nos batentes, os pássaros dançam em revoada. Os ombros frenéticos, as pernas ágeis. As mãos delicadas parecem serpentes. Os joelhos perfeitos dão o tom dos passos. Os pés ligeiros mal tocam o chão. Rodopia, enquanto treme os lábios. O reflexo no espelho exibe o salto. Do vigésimo andar, o último espetáculo.

Mão

A mão ossuda dele tapou sua boca e nariz, não podia respirar quase. A mão gelada sobre a sua boca tremia tanto quanto os seus próprios lábios. Sabia que tinha que ficar quieto quando a mão dele trancava a sua boca. A mão apertou mais forte, até sentir os dentes cravando as bochechas. Sua boca tremeu na mão dele e seus ouvidos ouviram passos. Tentou fazer mais silêncio ainda, mas seu silêncio já era tão absoluto quanto o de um cadáver. Sentiu a mão dele suar enquanto o corpo se debruçava sobre o seu para olhar pela fresta. A mão amoleceu livida pelo que os olhos viram, mas ainda voltou revigorada para um último abraço "te amo filho". Do outro lado do roupeiro estavam os soldados.