Ele me pergunta e eu olho pra dentro. Não sei responder.
Fico olhando em silêncio. Foi assim. É sempre assim.
Ele pergunta de novo e eu travo.
Tenho uma caneta nas mãos que uso pra me conter. Risco no papel um rosto bonito. Risco de novo e o rosto está quebrado. Risco uma boneca.
Passam-se horas.
Abro a boca e deixo a fumaça sair. Ela parece uma borboleta. Um anjo revoa na minha frente. Ele é doce. Acho que estou confundindo. É só fumaça. Toda noite é assim.
Estou ficando maluca.
Gosto do silêncio da noite. Ele é parecido com o silêncio da minha cabeça. É um silêncio de morte.
É estranho pensar em nada? Como faz? Eu não sei. Eu não sei pensar. Sou uma cabeça quebrada.
Quando eu brincava a boneca caiu no chão. Trincou a testa, que pena. Trincou a testa mas ninguém percebeu, então continuei brincando, mas a boneca quebrou mais.
Logo o trinco da testa estava em seu corpo todo, espalhado. Os braços timham enormes rachaduras. Ela não é mais tão bonita.
Estranho todas as partes seguirem unidas quando tudo está estilhaçado. Acho que as roupas ajudam a manter tudo no lugar.
A boneca caiu no chão e quebrou. Não dá mais pra consertar.
Ele me faz perguntas e eu fico em silêncio. Eu só queria um pouco de cola. Será que acho na internet? Amazon? Mercado Livre? Shoppe?
Eu acho que os olhos dela são de vidro. São tão parados.
Quando a fumaça sai da minha boca é como se fosse um pouco de alma indo embora. Ela vai embora dançando.
Se eu soprar na boca da boneca será que é melhor que cola?
Eu só queria consertar os seus braços. Os olhos parecem estar funcionando.
Acho que o martelo pode resolver. Se não dá pra consertar, então pode virar pó. Vou martelar a cabeça dela até não sobrar nada.
Marteladas. Marteladas. Marteladas.
O pó virou fumaça, não sobrou nada. Só os olhos parados quando ele faz uma pergunta.