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O SER CACHORRO

Por que sou humano? Eu poderia simplesmente ser cachorro. Nascer cachorro, latir cachorro e me coçar cachorro. Entretanto, nasci humano, e o que faço com isso? Qual o grande propósito de se nascer um ser pensante?

O DILEMA DE DEUS

A teologia diz que é onipotente, onisciente e bom. Ele aceitou o desafio do anjo caído. Ele apostou e não pode interferir. Mas se a simples regra de uma aposta lhe confere uma instransponível barreira, então, Deus não é onipotente. Ou se ele faz uma aposta, para daí sim saber o que escolhemos, então ele não é onisciente. Todavia, se ele cumpre a regra de uma aposta apenas por capricho, e nos dispõe como prêmio da aposta, mesmo conhecendo os resultados, em que perecemos, então só resta uma certeza: Deus não é bom.

DA NOSSA INSIGNIFICÂNCIA

Temos consciência. Dentre todas as raças e as espécies, somos a que tem consciência. E portando sabemos o tamanho do Universo. E, portanto, reconhecemos nosso tamanho diminuto. E, portanto, temos conhecimento de nossa morte. E, portanto, reconhecemos a nossa insignificância. Pela lógica da realidade nos imposta, sabemos que morreremos sem tocar tudo o que existe no Universo. Isso nos faz saber que ele não é nosso. Também sabemos que ele sempre existiu e sempre existirá, independente da gente existir ou não. Temos consciência de que, não importa o que façamos, para o Universo, que é o que existe e o que perdura; somos apenas irrelevantes.

A ESCOLHA DE TER CABEÇA

Essa é minha cabeça. Eu ganhei ela. Tenho livre arbítrio por Deus e liberdade constitucional pelo homem, mas ninguém perguntou se eu quero uma cabeça. E ela está aqui, de fato, em cima dos meus ombros, sobre o meu pescoço. Isso não me parece liberdade, nem livre arbítrio. Do meu nascimento até a minha morte, sou obrigado a carregá-la.

PARAFUSOS

Me dedico ao trabalho. Todo dia por oito horas aperto parafusos. É o que me pedem e faço dedicadamente. Mas não é suficiente para cobrir as outras dezesseis horas do dia. Nessas eu tenho que pensar. E é tanta coisa na minha cabeça. Queria mais parafusos.


PAREDE

Uma e meia da tarde e Janete está com a cabeça grudada na parede. A sensação gelada do tijolo contra a testa pressionada é refrescante e por um momento congela seus pensamentos. Conta até três baixinho e bate mais uma vez. Dessa vez, com tanta força que a cabeça quase entra na parede. Cola seus seios na parede gelada, o cérebro fica mudo por uma fração de segundos. Silêncio escuro dentro da cabeça de Janete. O ar que sai de suas narinas condensa na parede. A parede faz frio enquanto Janete queima. A mancha molhada feita de seus suor e sua respiração forma o negativo de sua cara, uma segunda Janete concreta e cinza. Seus olhos negros arregalados fitam a parede de tão perto que a imagem se cruza lisérgicamente. Passa a lingua devagar e o rastro de sua saliva constrói um caminho. A segunda Janete é cortada em pedaços pelo rastro de saliva. As mãos espalmadas acariciam esse caminho enquanto ele some entre seus dedos tensos. As marcas de saliva na parede não são eternas, melhor continuar desenhando com o sangue que escorre da testa. Conta até três baixinho e bate mais uma vez.