Dança no quarto sozinha. O corpo solto, o quadril libertino. Da janela pode ver o céu laranja. O horizonte da cidade delineia o drama. O corpo flexível, o abdômen languido. O pulsar da musica pulsa suas veias. No corpo vivo as mãos deslizam. O quadril vibra convidativo. Não está nua, mas se vê cada músculo. No espelho o reflexo emoldura o corpo de céu. O crepúsculo laranja incendeia o quarto. O corpo dança extasiado. No arroubo abre a blusa e solta os cabelos. O vento bate nos batentes, os pássaros dançam em revoada. Os ombros frenéticos, as pernas ágeis. As mãos delicadas parecem serpentes. Os joelhos perfeitos dão o tom dos passos. Os pés ligeiros mal tocam o chão. Rodopia, enquanto treme os lábios. O reflexo no espelho exibe o salto. Do vigésimo andar, o último espetáculo.
Mão
Tangerina
Sempre que ela subia as escadas eu me escondia no corredor para observar seus tornozelos. Seus passos saltados como passarinho faziam o vestido tangerina tremular com uma graça desatenta. Acho que ela sabia que eu estava escondido lá em baixo, por que quando chegava no último degrau suspirava e sorria com a chave na porta.
Esse era o sinal para que eu subisse correndo, latindo e balançando o rabo numa bagunça danada!
Salsichas
No meio do pavilhão empesteado, carnes e tripas são empurradas sem descanso.
Do outro lado da extrusora, deliciosos quitutes se amontoam.
Para os cachorros, a ração. Para os humanos, as salsichas.
Tartaruga Ninja
Virou a esquina apressado, cuspindo fumaça azul no pedregulho. Deuzulivre ser percebido pela Tartaruga Ninja, tinha que aproveitar que ela estava entretida vendo a Kombi dos palhaços.
Baita cotoco, como podia tanta pose de "te pego lá fora"? Tinha que ser rápido, antes que ela percebesse que acabou o picolé do carro. No outro dia, quem sabe enfrentaria a Tartaruga Ninja, mas por hoje, precisava abastecer o isopor.
Diz que tartaruga vive 120 anos, então ela aguenta até amanhã. Aguarda Tartaruga, que amanhã você ouve meu grito de guerra!
"Olha o carro do picolé passando na sua rua! É o picolé geladinho, gostosinho pra criançada. Olha o carro do picolé passando na sua rua!"
Laranja
O céu estava laranja de poeira. Dizem que veio da África, do Egito, veio de longe, como pode?
E aqui o céu fica laranja como a brasa acesa no fogão velho de meu pai. O fogão velho de lenha trepidante onde cada pedaço de madeira que caia ardia até se acabar em cinzas. As vezes eu jogava um pedaço de madeira para ver queimar.
Não há mistério, é o que se espera de um pedaço de lenha. Pedaço de madeira que outrora foi vivo e com seiva, mas que secou e virou carvão. O corpo trepidante, trêmulo no topo de um prédio. As labaredas do céu queimam, fornalha que seca. Quando cai logo vira cinza na calçada cinza de concreto.
O céu está laranja. Laranja como a brasa acesa no fogão velho de meu pai.
PORCA MISÉRIA
UNIFORME
A terra era um colchão que a protegia de afundar. Se caísse num buraco talvez o que tivesse do outro lado? Talvez um buraco de tatu chegasse na China. Resolveu cavar e suas unhas ficaram cheias de terra. Com certeza a mãe iria reclamar quando visse o uniforme todo puído. Fechou os olhos e cavou mais fundo. A mãe não ia conseguir limpar. Em silêncio ajoelhada dentro daquele buraco apertou-se contra a terra e fez mais força, cavou mais fundo. A camiseta branca da escola já não tinha mais solução. Passando já de cinquenta centímetros, sua força estava vencida, ela mesma, nem passava de um metro ainda. O uniforme estava irreparável. Exausta deitou-se e deixou o sono vir. Não há como limpar um uniforme violado.
MURO
Era estranho estar naquele lugar. Quando eu me encostava no muro era como se ele fosse um gigante que me protegia. Mas não era um gigante amoroso, ele não me abraçava como as árvores nem era macio como a terra. Na verdade não sei se ele se importava, ou se essa sensação era apenas pelo meu meio metro de altura. Mesmo assim eu fechava os meus olhos e me apertava ainda mais contra aquele muro. Talvez, assim como eu, ele se sentisse sozinho e quem sabe se ficássemos amigos, ele me deixaria ir para o outro lado.
O SER CACHORRO
Por que sou humano? Eu poderia simplesmente ser cachorro. Nascer cachorro, latir cachorro e me coçar cachorro. Entretanto, nasci humano, e o que faço com isso? Qual o grande propósito de se nascer um ser pensante?
O DILEMA DE DEUS
A teologia diz que é onipotente, onisciente e bom. Ele aceitou o desafio do anjo caído. Ele apostou e não pode interferir. Mas se a simples regra de uma aposta lhe confere uma instransponível barreira, então, Deus não é onipotente. Ou se ele faz uma aposta, para daí sim saber o que escolhemos, então ele não é onisciente. Todavia, se ele cumpre a regra de uma aposta apenas por capricho, e nos dispõe como prêmio da aposta, mesmo conhecendo os resultados, em que perecemos, então só resta uma certeza: Deus não é bom.
DA NOSSA INSIGNIFICÂNCIA
Temos consciência. Dentre todas as raças e as espécies, somos a que tem consciência. E portando sabemos o tamanho do Universo. E, portanto, reconhecemos nosso tamanho diminuto. E, portanto, temos conhecimento de nossa morte. E, portanto, reconhecemos a nossa insignificância. Pela lógica da realidade nos imposta, sabemos que morreremos sem tocar tudo o que existe no Universo. Isso nos faz saber que ele não é nosso. Também sabemos que ele sempre existiu e sempre existirá, independente da gente existir ou não. Temos consciência de que, não importa o que façamos, para o Universo, que é o que existe e o que perdura; somos apenas irrelevantes.
A ESCOLHA DE TER CABEÇA
Essa é minha cabeça. Eu ganhei ela. Tenho livre arbítrio por Deus e liberdade constitucional pelo homem, mas ninguém perguntou se eu quero uma cabeça. E ela está aqui, de fato, em cima dos meus ombros, sobre o meu pescoço. Isso não me parece liberdade, nem livre arbítrio. Do meu nascimento até a minha morte, sou obrigado a carregá-la.
PARAFUSOS
Me dedico ao trabalho. Todo dia por oito horas aperto parafusos. É o que me pedem e faço dedicadamente. Mas não é suficiente para cobrir as outras dezesseis horas do dia. Nessas eu tenho que pensar. E é tanta coisa na minha cabeça. Queria mais parafusos.
PAREDE
Uma e meia da tarde e Janete está com a cabeça grudada na parede. A sensação gelada do tijolo contra a testa pressionada é refrescante e por um momento congela seus pensamentos. Conta até três baixinho e bate mais uma vez. Dessa vez, com tanta força que a cabeça quase entra na parede. Cola seus seios na parede gelada, o cérebro fica mudo por uma fração de segundos. Silêncio escuro dentro da cabeça de Janete. O ar que sai de suas narinas condensa na parede. A parede faz frio enquanto Janete queima. A mancha molhada feita de seus suor e sua respiração forma o negativo de sua cara, uma segunda Janete concreta e cinza. Seus olhos negros arregalados fitam a parede de tão perto que a imagem se cruza lisérgicamente. Passa a lingua devagar e o rastro de sua saliva constrói um caminho. A segunda Janete é cortada em pedaços pelo rastro de saliva. As mãos espalmadas acariciam esse caminho enquanto ele some entre seus dedos tensos. As marcas de saliva na parede não são eternas, melhor continuar desenhando com o sangue que escorre da testa. Conta até três baixinho e bate mais uma vez.