Bloquear botão direito do mouse: Bloquear seleção de texto: Bloquear tecla Ctrl+C/Ctrl+V: Bloquear arrastar e soltar:

GOSTO QUE ME MORDAM

Gosto que me mordam, 

Gosto que me amarrem,

Me pilhem, humilhem,

Gosto que me mordam.


Gosto que me mordam,

Gosto que me arrasem,

Me xinguem, recriminem,

Gosto que me mordam.


Gosto que me mordam,

Gosto que me matem,

Me pisem, queimem,

Mas sobretudo,

Gosto que me mordam.

FUNGOS

Fungos


                        Fungos verdes


                                             Fungos verdes bolorentos


                                             Fundos bolorentos 


Da sala


Sala fechada


Sala torta


                          Torta

                                             

                                                    Porta maçaneta


SURPRESAAAAAAA


                        Dedo na torta

               

                                                Aniversário


Dedo na porta 


Macerados


Felicidade

        

            Falecimento

                        

                                            Vida e morte


E aniversários.


ASSASSINO

o vento sopra,

arrebentando as flores,

assassino vil.

 

PERDIDA

Caminho sozinha

Na estrada escura

Aqui faz frio

Não enxergo minhas mãos

Cantam escondidos

Atrás das copas

Dançam alucinados

Uma estranha canção

Meus olhos fechados

Meus lábios cerrados

Na ponta da rocha

Meu corpo desaba

Acima das nuvens

Com correntes nos pés

Eu não posso sonhar

Acordada estou

Olhos dilatados na fúria da morte!

Eu estou sozinha

Sempre estou sozinha...

Olhos dilatados na fúria da morte.

A dor de voar.

(Mas perdi meus pensamentos)

 

UNIFORME

A terra era um colchão que a protegia de afundar. Se caísse num buraco talvez o que tivesse do outro lado? Talvez um buraco de tatu chegasse na China. Resolveu cavar e suas unhas ficaram cheias de terra. Com certeza a mãe iria reclamar quando visse o uniforme todo puído. Fechou os olhos e cavou mais fundo. A mãe não ia conseguir limpar. Em silêncio ajoelhada dentro daquele buraco apertou-se contra a terra e fez mais força, cavou mais fundo. A camiseta branca da escola já não tinha mais solução. Passando já de cinquenta centímetros, sua força estava vencida, ela mesma, nem passava de um metro ainda. O uniforme estava irreparável. Exausta deitou-se e deixou o sono vir. Não há como limpar um uniforme violado.

MURO

Era estranho estar naquele lugar. Quando eu me encostava no muro era como se ele fosse um gigante que me protegia. Mas não era um gigante amoroso, ele não me abraçava como as árvores nem era macio como a terra. Na verdade não sei se ele se importava, ou se essa sensação era apenas pelo meu meio metro de altura. Mesmo assim eu fechava os meus olhos e me apertava ainda mais contra aquele muro. Talvez, assim como eu, ele se sentisse sozinho e quem sabe se ficássemos amigos, ele me deixaria ir para o outro lado.

MICROCONTOS

E depois de dez gerações, quem vai chorar por ti?

*

Primeiro queimou as fotos, depois fez um samba com a caixa de fósforos.

*

No fundo o copo, afogou-se no reflexo da lua.

*

Beijou-a com desejo. Tinha o mesmo perfume que sua mãe.

*

Da voz, sobrou apenas o recado após o bip. 

*

No reflexo empoeirado da medalha, viu a bola, o drible e o mindinho estourado. 

*

O vestido laranja era fogo ardente.

No fundo do rio admirou o céu pela última vez.

*

Fechou a casa toda. Mas a vizinha sentiu o cheiro.

*

Uma voz macia para contar mentiras.

*

Podia ser meu pai, mas era só mais um estranho.


***